Quaresma é o Tempo Litúrgico em que nos preparamos para a Páscoa do Senhor. Como peregrinos, durante este período de 40 dias, devemos seguir um itinerário de configuração em Cristo através da oração, caridade e jejum. No Brasil, há mais de 60 anos, durante a Quaresma a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) realiza a Campanha da Fraternidade, cuja intencionalidade é motivar os fiéis a refletir à luz do evangelho sobre aspectos sombrios e tristes da realidade do nosso país.
Palavras cortantes de São João Crisóstomo: “Como pensas que obedece aos mandamentos de Cristo, quando gasta seu tempo coletando juros, acumulando empréstimos, comprando escravos como gado e fundindo negócios com negócios? [Riqueza excessiva] é roubo, não porque foi roubado como um meio de obter riqueza, mas porque mantê-la é para privar os outros de suas necessidades. Se tens dois pares de sapatos, um pertence aos pobres”. A famosa frase do livro de Tiago, "a fé sem obras é morta" (cf. Tg 1,17), significa que, quando a fé não é acompanhada por ações concretas enraizadas no amor a Deus e ao próximo, é inútil por ser estéril. Não por acaso Santo Antônio, escreveu: “A linguagem é viva quando são as obras que falam”.
Com a celebração da Quarta-Feira de Cinzas a Igreja inicia solenemente o tempo litúrgico da Quaresma. Tempo de preparação para a maior festa da Igreja: a Páscoa do Senhor. O período de quarenta dias – número que a Bíblia associa a tempo de espera, de esforço, de penitência e luta contra o poder das trevas – em que os cristãos são chamados a assumir com mais firmeza e determinação o processo da própria conversão por meio da prática do jejum, da caridade e da oração. Após o batismo no Jordão “Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo Diabo. Por quarenta dias e quarenta noites esteve jejuando” (cf. Mt 4,1-2).
A Imposição das Cinzas realizada na Missa tem profundo significado espiritual: “Lembra-te que és pó e ao pó hás de tornar!” (cf. Gn 3,19). A cinza lembra da brevidade da nossa vida e da fragilidade humana, bem como da purificação do coração em vista da ressurreição. A Quaresma começa com a Cinzas e termina com a feliz Ressurreição. Através das Cinzas os discípulos de Jesus Cristo reconhecem a própria condição de criaturas falíveis e mortais. Ao mesmo tempo acolhem a experiência da morte, a exemplo de Cristo, pela renúncia de si mesmos, como experiência da vida que ressurge das cinzas.
É importante destacar que a Campanha da Fraternidade não faz sombra à Quaresma, mas dá visibilidade concreta ao processo de conversão. No tempo quaresmal, a Igreja nos convida a arregaçar as mangas e praticar a solidariedade e multiplicar gestos fraternos. A Campanha é uma forma objetiva de viver a espiritualidade da Quaresma, pois nos ajuda a enxergar realidades da nossa vida em sociedade e agir com caridade, sem preconceitos e sem resistências infantis. Infelizmente, há cristãos alienados que se comportam como mercenários e como inimigos da cruz de Cristo (cf. Fil 3,18).
A Campanha da Fraternidade de 2026 tem como tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (cf. Jo 1,14). A iniciativa propõe reflexão sobre o direito à moradia digna para todas as famílias. É escandaloso um país como o Brasil ainda ter de conviver com situações constrangedoras de famílias serem obrigadas a sobreviverem no relento por causa da vergonhosa e histórica desigualdade social. Até quando vamos suportar essa iniquidade!? Que tal, enquanto Paróquia, assumirmos o compromisso de construirmos uma casa para uma família necessitada como gesto concreto?