Estudo sobre a Carta de São Paulo aos Romanos

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A carta aos Romanos parece ter uma finalidade bem precisa: os temas teológicos tratados e o debate com o judaísmo mostram que Paulo está preocupado em corrigir falsas interpretações a respeito de sua pregação entre os pagãos, provavelmente levadas a Roma por judeus e por cristãos judaizantes (cf. Rm 16,17-18).

O Apóstolo expõe de maneira serena, ordenada e aprofundada, a doutrina que já havia exposto de modo polêmico na carta aos Gálatas: a gratuidade da salvação pela fé. Ele mostra que só Deus pode salvar e que ele salva não apenas os judeus, mas toda a humanidade destruída pelo pecado. E Deus salva por meio de Jesus Cristo. 

Paulo quer mostrar aos judeu-cristãos de Roma e a nós que nenhuma lei pode salvar, por melhor que seja, nem mesmo a judaica, pois não consegue destruir o pecado; ao contrário, ela até alimenta o pecado. Somente a fé que temos em Jesus Cristo é que nos insere no âmbito da graça e nos possibilita construir, no Espírito, a humanidade nova.


1. Objetivos

a) A comunidade de Roma não foi fundada por Paulo nem havia sido visitada por ele. Por isso existia a necessidade de ele estabelecer um laço com a comunidade, apresentando-se com suas credenciais: servo, apóstolo e escolhido (cf. Rm 1,1). 

Ele deseja anunciar e explicar, no mundo do império, o Evangelho de Jesus Cristo morto e ressuscitado (cf. Rm 3,25; 4,25). Trata-se de um Evangelho oposto ao evangelho do imperador romano, em função do poder e da riqueza (pax romana), e ao evangelho do judaísmo legalista, que prega a boa-nova da salvação pela observância fundamentalista da Lei (circuncisão, leis alimentares etc.).

b) Naquele momento de sua vida missionária, Paulo, ex-fariseu, é odiado pelo judaísmo legalista. Ele enfrenta a discordância e a desconfiança da comunidade-mãe de Jerusalém. Recentemente, na carta aos Gálatas, Paulo havia criticado fortemente o grupo judaizante, que procurava impor aos seguidores e seguidoras de Jesus Cristo (cristãos) o modo de viver dos judeus segundo a Lei, a cultura e os costumes judaicos. 

c) Paulo visita muitas cidades sob a dominação do império e é testemunha ocular da vida sofrida do povo (cf. Rm 1,18-2,16; 8,18-27). Ele pretende dialogar com a comunidade de Roma e orientar essa comunidade, que vive sob o poderio romano e seu espírito egoísta (pecado, carne), conforme a mentalidade greco-romana, a helenização (busca desenfreada de bens, poder, prazer e honra), que provoca conflito interno (a disputa por cargos etc.: 12,3-13) e gera a exclusão, o sofrimento de muitos e a destruição da natureza, provocada pelas guerras e pelo progresso da civilização romana. 

Para alcançar seus objetivos e ser bem recebido na comunidade de Roma, Paulo escreve a carta de modo sereno, sistemático e explicativo, contrastando com o tom polêmico usado na carta aos Gálatas (cf. Gl 3,1-5). A carta aos Romanos é levada à cidade de Roma, possivelmente pela diaconisa Febe (cf. Rm 16,1-2), uma das muitas mulheres colaboradoras de Paulo (cf. Rm 16,3-15). Pessoalmente, Paulo só chegará lá mais tarde como prisioneiro, em 61 d.C. (cf. At 28,11-16).


2. Conhecendo a comunidade cristã de Roma

No século I, a população de Roma, capital imperial, é constituída por cerca de milhão de habitantes, em sua maioria escravos, que viviam subjugados e explorados pelo império. A vida deles normalmente é muito breve – não ultrapassava os 20 anos – e havia grande incidência de suicídios. É uma sociedade escravagista, marcada pelo espírito da helenização e justificada pela “religião” do imperador. 

A comunidade de Roma não era fruto de atividades missionárias de algum apóstolo importante, como Pedro, por exemplo. Ela surgiu com a chegada de judeu-cristãos vindos da Palestina e da Síria, na década de 40 d.C. A presença dos cristãos, que pregavam Jesus como o Messias esperado, tinha dado lugar a severas discussões e a tumultos nas comunidades judaicas, cujos membros – cerca de vinte mil – se encontravam espalhados em mais de dez sinagogas na cidade de Roma. 

Diante desses conflitos, o imperador Cláudio decretou o edito contra sinagogas e indivíduos responsáveis pelos distúrbios (de um lado, judeus; de outro, judeu-cristãos), que chegaram a ser expulsos de Roma, nos anos 40 d.C. O casal judeu-cristão Priscila e Áquila, vítima dessa expulsão, certamente informaram Paulo sobre a triste situação da comunidade cristã de Roma e a situação da cidade (cf. At 18,1-4; cf. Rm 16,3-5).

A proibição da autoridade romana de reunir-se nas sinagogas levou os judeu-cristãos e os gentio-cristãos (chamados de “gregos”: 1,16; 2,9-10; 3,9; 10,12) a intensificar as reuniões nas casas de seus membros – a igreja doméstica (cf. Rm 16,4-5.10-11). 

Além dos conflitos internos, no tempo de Nero, a comunidade sofre ainda mais com a sociedade injusta e desigual, movida pelos instintos egoístas, que promoviam a maldade, a perversidade e o culto aos ídolos do império (cf. Rm 1,24-32), provocando o sofrimento e a morte de muitos, bem como a destruição da natureza, obra (glória) do Deus criador (cf. Rm 8,18).

Diante dos problemas internos e externos da comunidade, Paulo escreve a carta aos Romanos para dialogar com a comunidade e orientá-la sobre a fé no caminho do justo segundo o Evangelho de Jesus Cristo: “De fato, no Evangelho a justiça de Deus se revela através da fé e para a fé, conforme está escrito: ‘O justo viverá pela fé’” (cf. Rm 1,17).


3. Conhecendo as mensagens teológico-pastorais da carta

A carta aos Romanos contém muito dos temas teológico-pastorais tratados nas constantes discussões com o judaísmo, com os judeu-cristãos e com os gentio-cristãos sobre os conflitos dentro e fora da comunidade, no mundo injusto e desigual do Império Romano. Eis aqui as principais mensagens expostas pela carta após a introdução geral (cf. Rm 1,1-17), na qual Paulo anuncia o tema central:  “o Evangelho de Jesus Cristo é força de Deus e para a salvação” (cf. Rm 1,16):

a) Todos estão sob a ira (julgamento) de Deus (cf. Rm 1,18-3,20). Paulo começa com a descrição da realidade da condição dos gregos e dos judeus. A ira divina se manifesta contrária à impiedade contra Deus e à injustiça aos seres humanos, praticadas pelos gregos sob o império cf. (Rm 1,18-32), e também é contra a atitude hipócrita dos judeus por não praticarem a Lei e imporem o jugo da Lei a todos das comunidades de seguidores e seguidoras de Jesus Cristo (cf. Rm 2,1-29): “Tanto os judeus quanto os gregos, todos estão debaixo do pecado” (cf. Rm 3,9).

b) A justiça divina (salvação) pela fé, como o exemplo de Abraão (cf. Rm 3,21-4,25). Pela fé na “redenção realizada por Jesus Cristo”, a graça de Deus, o seu amor gratuito em ação na história (cf. Rm 3,24-26), os judeus e os gregos podem integrar-se no projeto divino (separar-se do pecado: a autossuficiência e a injustiça), praticando a justiça e a piedade para com Deus, e passar da ira de Deus à sua justiça salvadora: “A justiça de Deus que vem por meio da fé em Jesus Cristo, em favor de todos os que acreditam” (cf. Rm 3,22).

c) A graça da justificação em Jesus Cristo (a justificação: tornar-se justo e salvo ou ter amizade e paz com Deus - 5,1-7,25). A salvação de Deus se realiza pela fé na sua graça, manifestada em Jesus Cristo morto e ressuscitado (“novo Adão”), e não pelo poderio do império (o sistema opressivo: “tribulações”) nem pelas obras da Lei do judaísmo legalista (a justiça retributiva, baseada na observância de um código moral e ritual). 

d) A vida no Espírito (cf. Rm 8,1-39). O capítulo 8 é o ponto máximo da carta e se encontra bem no centro. Contrastando com a vida na carne (“lei do pecado e da morte”, instintos egoístas, o espírito da helenização: 8,2; 7,14-25), a pessoa cristã deve viver no Espírito (a “lei do Espírito da vida”: o amor, o caminho da vida - 8,1; 5,5) de Jesus Cristo – que lutou pela vida, morreu pelo amor ao próximo e foi ressuscitado para a vida –, a fim de passar dos instintos egoístas para a gratuidade da salvação de Deus. 

e) O universalismo do plano salvífico diante da salvação restrita a Israel – o povo judeu (cf. Rm 9,1-11,36). Não há distinção entre judeus e gregos (não judeus) na salvação gratuita (a graça) de Deus por Jesus Cristo. A salvação não é questão de cultura e de Lei judaica, mas sim da fé no caminho do Evangelho (cf. Rm 10,16; 11,28; Is 52,7) de Jesus Cristo morto e ressuscitado. O fato de os seguidores/as de Jesus Cristo serem de etnia, gênero, classe e cultura diferentes não é fator de desunião e de conflito, mas de solidariedade e de enriquecimento mútuo: “Portanto, não há distinção entre judeu e grego, porque Jesus é Senhor de todos, e concede suas riquezas a todos os que o invocam” (cf. Rm 10,12; cf. 1Cor 12,13; Gl 3,28).

f) O amor dentro e fora da comunidade (cf. Rm 12,1-13,14). A pessoa que reconhece a vida (corpo) como graça de Deus, seu amor gratuito em ação, descobre a gratuidade para com os outros; forma a comunidade como um só corpo em Cristo; reparte os dons concedidos por Deus a serviço do bem comum; pratica o amor ao próximo, sobretudo para quem tem sede e fome; submete-se (dedica respeito) à autoridade que está a serviço do amor de Deus e do bem comum: “O amor não faz nenhum mal ao próximo, pois o amor é o cumprimento total da Lei” (cf. Rm 13,10).

g) A convivência e a fraternidade na comunidade (cf. Rm 14,1-15,13). Os “fortes” e os “fracos” convivem no amor de Jesus Cristo, acolhendo as diferenças e construindo o Reino de Deus: “Pois o Reino de Deus não é comida nem bebida (em torno da lei alimentar etc.), e sim justiça, paz e alegria no Espírito Santo. Quem serve a Cristo nessas coisas, agrada a Deus e tem a estima das pessoas” (cf. Rm 14,17-18); “Por isso, acolham-se uns aos outros, como Cristo acolheu vocês para a glória de Deus” (cf. Rm 15,7).

À guisa de conclusão

Na leitura contextualizada da carta aos Romanos, percebe-se que ela, como todos os escritos de Paulo, não é bem um tratado de teologia dogmática, mas um texto pastoral para quem segue Jesus Cristo e sofre com o mundo dominado pela tirania da “lei do pecado e da morte” (cf. Rm 8,2). 

Nos gemidos de quem prega o Evangelho de Jesus Cristo crucificado e luta pelo projeto de Deus, Paulo exprime: “Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada?” (cf. Rm 8,35). 

Como no mundo de Paulo, muitos de nossos irmãos e irmãs continuam oprimidos e feridos pelas forças do mal. O império de hoje continua devorando o corpo e alma dos empobrecidos; pior: muitas vezes, em nome da religião e com a manipulação da Palavra e da instrumentalização do santo nome de Deus.  

Que Deus aumente em nós, sempre mais, o amor a Jesus Cristo crucificado e ressuscitado! Que, à luz do Espírito Santo, possamos viver na esperança da realização definitiva do Reino de Deus, já antecipado quando a preocupação pela justiça do Reino, pela cultura da fraternidade e pela civilização do amor seja a prioridade de todos os discípulos de Jesus.  

Sinop, 23 de setembro de 2025. 

(Síntese, com livres adaptações do artigo dos biblistas Shigeyuki Nakanose, svd/Maria Antônia Marques, publicado na REVISTA PASTORAL, setembro-outubro de 2025 - ano 66 - número 365 - pp. 4-11). 

 
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